domingo, 4 de agosto de 2013

Íris

cabeças ao redor
encolhem
recolhem
clamam pelos pescoços soltos

vieram três corpos
todos perdidos
atabalhoados
não havia nada acima do dorso

um deles foi ao chão
buscou a perna do outro, que
parou, ajudou-lhe a erguer
seguiram como corrente

suas cabeças estavam em minhas mãos
cobria-lhes os olhos
assustariam se vissem suas partes a procurar
assustaram-me

o que fazer com aquilo?
o sangue estancado
os cortes precisos
seria preciso algo...

meus olhos tremiam,
sem chorar ou gritar,
percebia a inquietação no ranger dos dentes,
na aceleração do piscar.

deixo-as aqui?
entrego-as em mãos?
suporto?
tenho algum tempo até passarem.

caminho até os corpos
e coloco, cuidadosamente, as cabeças no chão
estão no meio do caminho
mais dois passos... tropeçam

deixo e assisto de longe
os corpos caem
todos os três
todas as cabeças olham fixas para eles, como quem faz um pedido

subo em uma árvore
de cima a visão é ainda mais onírica
rastejam até as cabeças
tateiam-as, como para saber se são suas e, então, descartam... uma a uma

sofro com a dor daqueles que não se pertencem
desço da árvore
calmo
junto as três e levo-as comigo

em casa, no quarto, deito com elas
perguntas fiz, mas não podem pronunciar uma só palavra
lhes faltam o ar, lhes faltam o restante da traqueia
lhes faltam todo o resto

disfarço o desconforto
vou à cozinha
volto com três facas afiadas
uma para cada uma

pego uma seringa
dissolvo 70mg de Valium para cada uma delas
injeto em suas fontes... elas, agora, dormem para sempre
quanto a mim, tento extrair de suas íris um pouco de vida para injetar na minha



terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Significante, significado, significações

roliço,
calvo,
ausente...
mãos nos pés e boca no sexo.

saliva,
pele,
contato,
dente escondido e lábio melado.

líquido,
branco,
quente...
porra na boca e pentelho no sabonete.


domingo, 23 de dezembro de 2012

Resquícios

Há muito por aqui. Toalhas, camisetas, cuecas, lençóis, cadernos, cigarros e restos de comida. Em meio ao todo estão corpos ou ratos. Sangue ou molho de tomate. Não há como precisar. O quarto, pequeno, não mais existe. Só um amontoado de vícios e roupas sujas. A televisão também está um pouco danificada, assim como o móvel que a sustenta. A cama, sem lençol, possui mais suor que qualquer ser humano, ela fede. O armário está cheio de cupins. Os livros já não são lidos. Tudo o que se pode fazer é deitar e apreciar, de certa forma, a degradação. O barulho vindo da rua o deixa ainda mais louco. Gritos e mais gritos emanam do apartamento. Todos eles veem de uma pessoa, Bento. Quem o ouve não mais acredita em sua lucidez. 


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Amanha pararei... amanhã


A rotina para viciados pode ser intensa. Manter-se sóbrio é algo buscado diariamente. Manter-se chapado é inerente ao dia. Não se pode lutar contra aquilo que preenche as horas e faz esquecer, acordar, adormecer, levitar. Há viciados para todo o tipo de merda. Sexo, álcool, crack, religião, exercícios e várias outros. Nem tudo que faz mal vicia, assim como nem tudo que faz bem é realmente bom. Dialeticamente convivemos com o lado bom e ruim de qualquer vicio. Só que os drogados são os que sofrem mais.
Gosto das drogas, tenho asco por religião e exercícios. Os amigos acreditam estou no fundo do poço. A família não acredita ter um ente neste estado. Eu acredito que isso me faça vivo. Se ainda estou aqui, devo isso às drogas. São três tipos de medicamentos prescritos pelo psiquiatra e mais três outros que me entorpecem, claro, comprados fora da drogaria. Todos juntos fazem com que minha cabeça se alargue tanto até que eu me esqueça de mim, do mundo e de qualquer vínculo social que possa ter. Fico à mercê do meu ser. Ele não é mais bonito que o de outra pessoa, mas é realmente meu. Se falo demais, se balanço meu corpo demais, se meus olhos ficam vermelhos e parecem cansados, se me contorço por inteiro, se deito no chão e acendo um cigarro para olhar o teto, estou feliz. Aquele momento é meu. Se caiu na rua e me machuco, isso também é meu. Desde que não faça mal aos outros, de qualquer forma possível, não me importo com as consequencias. A morte é a única certeza que temos. Já nascemos mortos. Por que, então, não sermos livre nesse tempo a findar? Esteja certo, a sobriedade é o lugar do não, da negação da liberdade, da falta. Sempre penso nisso quando estou prestes a me perder ou me achar. Depende de quem olha...

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Barulho.
O transito não pára do lado de fora da janela.
O transito nunca pára.
O incomodo barulho enlouquece.
Vrums,
Vrummmmssss,
Irrrcc,
Biiiiiiiiiiiiiiii,
Bibi,
Vrum vrum vrum.
O incomodo barulho mata...
Puff...

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Terra, buceta e almas perdidas (parte 1)

Atirou-se na lama. A necessidade vinha sempre que passava de ônibus pela encosta enchardada pela chuva. Precisava estar em contato direto com aquilo. Sem metáforas ou anedotas. Lama feita de barro e água. A ideia anterior de lama deu lugar a experiência vivida. O contato com ela era mais do que uma vivência. Era experiência estética, capaz de mudar conceitos de lugar, transformar, levar à ação.

Nunca foi afeito a tomar atitudes. Sempre deixou a vida seguir seu rumo. Só agora isto o incomodava. Lavou-se na lama. Seguiu o restante do caminho a pé. Quase dois quilômetros de aventura, em um acostamento fino, até sua casa. Todo o barro, impregnado em suas roupas e cabelos, se dissipava com a chuva torrencial. Sentia-se louco, talvez o fosse, mas enganava bem. Sua apatia corriqueira deu lugar aquele gesto determinando uma possível guinada. "Lama não são os bares, a mulheres e toda a loucura da noite, lama é isso no meu rosto.", pensou.

Banho tomado. Roupa de dormir. Comida esquentando no fogão. O cansaço da caminhada e o dia extenuante no trabalho contribuiam para seu desperezo com o que o mundo lá fora poderia lhe dar. Encheu a barriga. Abriu uma cerveja e ligou o som. Abriu outra cerveja. Aumentou o volume. Tomou uma dose de bourbon. Aumentou o volume. Abriu mais uma cerveja e foi para o quarto se trocar.

- Alô?! Quem é?!
- É o Bento! Vamos sair?!

Letícia entendeu o recado e disse que o buscaria em uma hora. Não combinaram lugar ou o que fariam. Decidiriam no caminho para o Centro. Meio bêbado, Bento estava ansioso para deixar sua casa. De uma hora para outra a lama se instalou novamente e viu seu rosto tomado pela terra molhada.  A maquiagem estava ótima e ele ansioso para mostrar a ela. Letícia, sua amiga há anos, era um pouco disléxica, apesar da inteligência. Odiava lugares cheios, pessoas burras, conversas sobre o nada, fofocas e vivia cercada de gente interessante. Nunca teve um namorado. Não acredita em amor, só em sexo. Tem pouco interesse em relações em que possa se sentir presa, seja quais elas forem. Em seus 29 anos o tédio nunca lhe sorriu. Sua cabeça explode de ideias e seu trabalho, como artista plástica, a satizfaz por completo. Já Bento tenta lidar com seu demônios desde que se entende um homem. Analista de marketing, ele não suporta o emprego e se vê dia após dia atolado em desesperança. Suas aspirações parecem longe de deitarem em sua cama. A única coisa que o salva é sua vida noturna. Bebidas, drogas e cada vez mais mulheres. A tríade universal.


terça-feira, 28 de agosto de 2012

Das noites a nadar nas nádegas nefastas

Olá!
Que venha aqui me perguntar se ainda há um pouco de graça no pisar. Digo não.
Confuso e cinzento, de céu aberto na boca da lata sem coca.

Repara que o outro vem significar aquilo que já não mais pode.
Repara que o outro vem determinar o passo e o compasso das horas e dos pormenores gastos a troco de vento e gripe no peito.

Vassalo de ninharias dispostas na loucura gangrenada da testa daquele que de ilusionista passou a ser persecutório da ilusão esquizofrênica dos sentidos táteis, forçados pela cabeça estanque com cheiro de estrume podre cagado por porcos, coisa suja mesmo!

Se de olhares virasse um prodigioso dono do labor que restou à face ruborizada de quem achou por bem tocar na fonte da ovelha e vê-la tilintar de frio na espinha pelo abuso sofrido no ânus que penetrou-lhe a carne e a fez berrar na língua,talvez seria pouco pensar nas vagarosas incomodações que se sucedem pelo corpo que acha estar, mas não está.

No fim tudo se mostra como tédio. No fim do se volta para o tédio.
Às voltas com ele, deixo-me seduzir pelos labirintos difíceis de escapar, e me molho nas águas mornas de um viver atormentado pelo morrer, vivo dentro de um aquário horizontal de caminhos fáceis de trilhar nos momentos áureos do entorpe lunático da mente pregressa.

Rigidez dos cataventos que não dormem nas noites gélidas do deserto.

Bem quistos são aqueles que vivem no apogeu triunfante das memórias fáceis, e na fugacidade relacional das almas, que se incendeiam nas mesas à procura de um sorriso novo que lhe venha embriagar com o álcool que desce sem molhar a paz eterna da vida sem sobressaltos sentimentais.

Vide em mim nossas agruras. Vide em mim a ceia eterna do faminto que nunca cessa de comer. Raro não são os ossos roídos e depois disparados ao ar somente para ver se a maneira de se ter ou de se estar, e de não se estar e nem se ter, não passa de mero distúrbio cerebral do achar.