Barulho.
O transito não pára do lado de fora da janela.
O transito nunca pára.
O incomodo barulho enlouquece.
Vrums,
Vrummmmssss,
Irrrcc,
Biiiiiiiiiiiiiiii,
Bibi,
Vrum vrum vrum.
O incomodo barulho mata...
Puff...
terça-feira, 13 de novembro de 2012
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Terra, buceta e almas perdidas (parte 1)
Atirou-se na lama. A necessidade vinha sempre que passava de ônibus pela encosta enchardada pela chuva. Precisava estar em contato direto com aquilo. Sem metáforas ou anedotas. Lama feita de barro e água. A ideia anterior de lama deu lugar a experiência vivida. O contato com ela era mais do que uma vivência. Era experiência estética, capaz de mudar conceitos de lugar, transformar, levar à ação.
Nunca foi afeito a tomar atitudes. Sempre deixou a vida seguir seu rumo. Só agora isto o incomodava. Lavou-se na lama. Seguiu o restante do caminho a pé. Quase dois quilômetros de aventura, em um acostamento fino, até sua casa. Todo o barro, impregnado em suas roupas e cabelos, se dissipava com a chuva torrencial. Sentia-se louco, talvez o fosse, mas enganava bem. Sua apatia corriqueira deu lugar aquele gesto determinando uma possível guinada. "Lama não são os bares, a mulheres e toda a loucura da noite, lama é isso no meu rosto.", pensou.
Nunca foi afeito a tomar atitudes. Sempre deixou a vida seguir seu rumo. Só agora isto o incomodava. Lavou-se na lama. Seguiu o restante do caminho a pé. Quase dois quilômetros de aventura, em um acostamento fino, até sua casa. Todo o barro, impregnado em suas roupas e cabelos, se dissipava com a chuva torrencial. Sentia-se louco, talvez o fosse, mas enganava bem. Sua apatia corriqueira deu lugar aquele gesto determinando uma possível guinada. "Lama não são os bares, a mulheres e toda a loucura da noite, lama é isso no meu rosto.", pensou.
Banho tomado. Roupa de dormir. Comida esquentando no fogão. O cansaço da caminhada e o dia extenuante no trabalho contribuiam para seu desperezo com o que o mundo lá fora poderia lhe dar. Encheu a barriga. Abriu uma cerveja e ligou o som. Abriu outra cerveja. Aumentou o volume. Tomou uma dose de bourbon. Aumentou o volume. Abriu mais uma cerveja e foi para o quarto se trocar.
- Alô?! Quem é?!
- É o Bento! Vamos sair?!
Letícia entendeu o recado e disse que o buscaria em uma hora. Não combinaram lugar ou o que fariam. Decidiriam no caminho para o Centro. Meio bêbado, Bento estava ansioso para deixar sua casa. De uma hora para outra a lama se instalou novamente e viu seu rosto tomado pela terra molhada. A maquiagem estava ótima e ele ansioso para mostrar a ela. Letícia, sua amiga há anos, era um pouco disléxica, apesar da inteligência. Odiava lugares cheios, pessoas burras, conversas sobre o nada, fofocas e vivia cercada de gente interessante. Nunca teve um namorado. Não acredita em amor, só em sexo. Tem pouco interesse em relações em que possa se sentir presa, seja quais elas forem. Em seus 29 anos o tédio nunca lhe sorriu. Sua cabeça explode de ideias e seu trabalho, como artista plástica, a satizfaz por completo. Já Bento tenta lidar com seu demônios desde que se entende um homem. Analista de marketing, ele não suporta o emprego e se vê dia após dia atolado em desesperança. Suas aspirações parecem longe de deitarem em sua cama. A única coisa que o salva é sua vida noturna. Bebidas, drogas e cada vez mais mulheres. A tríade universal.
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Das noites a nadar nas nádegas nefastas
Olá!
Que venha aqui me perguntar se ainda há um pouco de graça no pisar. Digo não.
Confuso e cinzento, de céu aberto na boca da lata sem coca.
Repara que o outro vem significar aquilo que já não mais pode.
Repara que o outro vem determinar o passo e o compasso das horas e dos pormenores gastos a troco de vento e gripe no peito.
Vassalo de ninharias dispostas na loucura gangrenada da testa daquele que de ilusionista passou a ser persecutório da ilusão esquizofrênica dos sentidos táteis, forçados pela cabeça estanque com cheiro de estrume podre cagado por porcos, coisa suja mesmo!
Se de olhares virasse um prodigioso dono do labor que restou à face ruborizada de quem achou por bem tocar na fonte da ovelha e vê-la tilintar de frio na espinha pelo abuso sofrido no ânus que penetrou-lhe a carne e a fez berrar na língua,talvez seria pouco pensar nas vagarosas incomodações que se sucedem pelo corpo que acha estar, mas não está.
No fim tudo se mostra como tédio. No fim do se volta para o tédio.
Às voltas com ele, deixo-me seduzir pelos labirintos difíceis de escapar, e me molho nas águas mornas de um viver atormentado pelo morrer, vivo dentro de um aquário horizontal de caminhos fáceis de trilhar nos momentos áureos do entorpe lunático da mente pregressa.
Rigidez dos cataventos que não dormem nas noites gélidas do deserto.
Bem quistos são aqueles que vivem no apogeu triunfante das memórias fáceis, e na fugacidade relacional das almas, que se incendeiam nas mesas à procura de um sorriso novo que lhe venha embriagar com o álcool que desce sem molhar a paz eterna da vida sem sobressaltos sentimentais.
Vide em mim nossas agruras. Vide em mim a ceia eterna do faminto que nunca cessa de comer. Raro não são os ossos roídos e depois disparados ao ar somente para ver se a maneira de se ter ou de se estar, e de não se estar e nem se ter, não passa de mero distúrbio cerebral do achar.
Que venha aqui me perguntar se ainda há um pouco de graça no pisar. Digo não.
Confuso e cinzento, de céu aberto na boca da lata sem coca.
Repara que o outro vem significar aquilo que já não mais pode.
Repara que o outro vem determinar o passo e o compasso das horas e dos pormenores gastos a troco de vento e gripe no peito.
Vassalo de ninharias dispostas na loucura gangrenada da testa daquele que de ilusionista passou a ser persecutório da ilusão esquizofrênica dos sentidos táteis, forçados pela cabeça estanque com cheiro de estrume podre cagado por porcos, coisa suja mesmo!
Se de olhares virasse um prodigioso dono do labor que restou à face ruborizada de quem achou por bem tocar na fonte da ovelha e vê-la tilintar de frio na espinha pelo abuso sofrido no ânus que penetrou-lhe a carne e a fez berrar na língua,talvez seria pouco pensar nas vagarosas incomodações que se sucedem pelo corpo que acha estar, mas não está.
No fim tudo se mostra como tédio. No fim do se volta para o tédio.
Às voltas com ele, deixo-me seduzir pelos labirintos difíceis de escapar, e me molho nas águas mornas de um viver atormentado pelo morrer, vivo dentro de um aquário horizontal de caminhos fáceis de trilhar nos momentos áureos do entorpe lunático da mente pregressa.
Rigidez dos cataventos que não dormem nas noites gélidas do deserto.
Bem quistos são aqueles que vivem no apogeu triunfante das memórias fáceis, e na fugacidade relacional das almas, que se incendeiam nas mesas à procura de um sorriso novo que lhe venha embriagar com o álcool que desce sem molhar a paz eterna da vida sem sobressaltos sentimentais.
Vide em mim nossas agruras. Vide em mim a ceia eterna do faminto que nunca cessa de comer. Raro não são os ossos roídos e depois disparados ao ar somente para ver se a maneira de se ter ou de se estar, e de não se estar e nem se ter, não passa de mero distúrbio cerebral do achar.
terça-feira, 6 de março de 2012
Mingau
desci do ônibus e percebi que estava no lugar errado. decidi caminhar. o sol queimava. a camisa preta me fazia suar mais do que o habitual. a vida tem sido uma merda. constantes dissabores me fazem perceber o quanto é um fardo levantar da cama. o despertar é uma das piores sensações quando se está em luta. não faz sentido um morto brigar. o vazio, consumido rapidamente a todo instante, é preenchido por mais vazios. dois vazios podem ocupar o mesmo lugar, em um mesmo instante.
vivo na imensidão, na afetação de um viver destituído de vida. falo por mim, é claro. mesmo porque quando olho para os outros percebo-os tão cheios de si, cheios de tudo. entupidos até o talo. entupidos o bastante para transbordarem suas merdas por aí. claro, a merda é por minha conta. talvez eles, os outros, não se dêem conta, pois estão tão perfumados que não conseguem sentir o cheiro que saem de seus corpos. não que eu não cheire a merda. talvez o que exala de mim seja mais parecido com carne em decomposição. é difícil saber essas coisas.
já não chegaria mais à entrevista. há meses procuro uma forma de ganhar dinheiro sem ter que trabalhar muito. o desemprego veio em um bom momento. precisava de tempo para clarear as ideias e tentar entender como se projeta uma boa pipa. daquelas que se perdem no céu. nunca consegui fazer nada voar muito alto. o seguro desemprego chegava ao fim e com ele todo o resto do dinheiro. o tempo que tive não serviu para desembaçar a janela e muito menos para projetar a sonhada rabiola. não serviu para nada. bebi, dormi e me afastei de tudo que pudesse ser considerado humano. passei dias e dias trancado em casa, saindo apenas para comprar cigarros e mais alcool. algumas vezes, sentei em bares durante a tarde para me perguntar se tudo isso realmente valia a pena. sem encontrar resposta satisfatória para me dedicar a outros caminhos, concluí o óbvio: valia a pena.
virei à esquerda e encontrei um bar. sentei. perguntei ao garçom se poderia acender um cigarro. ele fez positivo com o polegar. deixei a tragada fluir. depois derramei um pouco de cerveja na garganta. eram três da tarde, estava sem trabalho e meu dinheiro estava no fim.
vivo na imensidão, na afetação de um viver destituído de vida. falo por mim, é claro. mesmo porque quando olho para os outros percebo-os tão cheios de si, cheios de tudo. entupidos até o talo. entupidos o bastante para transbordarem suas merdas por aí. claro, a merda é por minha conta. talvez eles, os outros, não se dêem conta, pois estão tão perfumados que não conseguem sentir o cheiro que saem de seus corpos. não que eu não cheire a merda. talvez o que exala de mim seja mais parecido com carne em decomposição. é difícil saber essas coisas.
já não chegaria mais à entrevista. há meses procuro uma forma de ganhar dinheiro sem ter que trabalhar muito. o desemprego veio em um bom momento. precisava de tempo para clarear as ideias e tentar entender como se projeta uma boa pipa. daquelas que se perdem no céu. nunca consegui fazer nada voar muito alto. o seguro desemprego chegava ao fim e com ele todo o resto do dinheiro. o tempo que tive não serviu para desembaçar a janela e muito menos para projetar a sonhada rabiola. não serviu para nada. bebi, dormi e me afastei de tudo que pudesse ser considerado humano. passei dias e dias trancado em casa, saindo apenas para comprar cigarros e mais alcool. algumas vezes, sentei em bares durante a tarde para me perguntar se tudo isso realmente valia a pena. sem encontrar resposta satisfatória para me dedicar a outros caminhos, concluí o óbvio: valia a pena.
virei à esquerda e encontrei um bar. sentei. perguntei ao garçom se poderia acender um cigarro. ele fez positivo com o polegar. deixei a tragada fluir. depois derramei um pouco de cerveja na garganta. eram três da tarde, estava sem trabalho e meu dinheiro estava no fim.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
E veio como um suspiro
cansado dos diversos rostos a se contorcerem à sua frente foi-se deitar. tentou se esquecer dos barulhos da sala e se concentrar de vez por todas nas voltas que sua cabeça dava ao redor de seus olhos. aquilo era algo extremamente precioso e não poderia ser perder por conta de infortúnios exteriores. deixou-se levar.
quanto daquela noite ainda havia ali? quanto daqueles gestos haviam ficado estagnado no corpo e no olhar? não era isto que gostaria de pensar. “mas poderia sê-lo”, indagou. já se foram alguns pedaços da hora, que antes estava cheia, e ele ainda está lá, tentando concentrar seus esforços para perceber sua cabeça girando à sua frente. é importante considerar que já não havia nele, naquele momento e vários atrás, condição alguma de sobriedade. Seria difícil se concentrar em qualquer coisa, o que dirá em sua própria angústia alcoolica, como está tentando fazer.
de fato não eram só as diferentes formas de alcool ingeridas nesta noite, mas também eram os traços da outra noite que estava a remoer. algo ainda estava nele, mas não tinha certeza exatamente do que poderia ser. não tinha certeza de muito de suas memórias. lembrava-se, apenas, que havia tido bons momentos. quantos? por quanto tempo? com quem? ainda estava vago.
e como um suspiro, desceu sobre ele o sono. entre a vigília e o descanso restaram as lembranças de um adormecer ainda não completo. de súbito, abriu os olhos. tatou o ar como se ainda estivesse a sonhar. tentou se lembrar onde estava. tentou reconhecer os móveis ao seu redor. e quando estava certo do lugar ao qual ocupava, os ventos daquela noite sopraram-lhe os ouvidos. entorpecido pelas lembranças que só agora afloravam e pelas vontades de outrora guardou os próximos suspiros para o dia em que viria novamente ter as sensações daquela noite em seu corpo e em seu olhar.
quanto daquela noite ainda havia ali? quanto daqueles gestos haviam ficado estagnado no corpo e no olhar? não era isto que gostaria de pensar. “mas poderia sê-lo”, indagou. já se foram alguns pedaços da hora, que antes estava cheia, e ele ainda está lá, tentando concentrar seus esforços para perceber sua cabeça girando à sua frente. é importante considerar que já não havia nele, naquele momento e vários atrás, condição alguma de sobriedade. Seria difícil se concentrar em qualquer coisa, o que dirá em sua própria angústia alcoolica, como está tentando fazer.
de fato não eram só as diferentes formas de alcool ingeridas nesta noite, mas também eram os traços da outra noite que estava a remoer. algo ainda estava nele, mas não tinha certeza exatamente do que poderia ser. não tinha certeza de muito de suas memórias. lembrava-se, apenas, que havia tido bons momentos. quantos? por quanto tempo? com quem? ainda estava vago.
e como um suspiro, desceu sobre ele o sono. entre a vigília e o descanso restaram as lembranças de um adormecer ainda não completo. de súbito, abriu os olhos. tatou o ar como se ainda estivesse a sonhar. tentou se lembrar onde estava. tentou reconhecer os móveis ao seu redor. e quando estava certo do lugar ao qual ocupava, os ventos daquela noite sopraram-lhe os ouvidos. entorpecido pelas lembranças que só agora afloravam e pelas vontades de outrora guardou os próximos suspiros para o dia em que viria novamente ter as sensações daquela noite em seu corpo e em seu olhar.
quinta-feira, 31 de março de 2011
Logo ali estão as penas para o cocar do rito
acordar com o passado
brinde na tarde chuvosa
doce neblina
suavidade nas pálpebras alertas
vigia,
venha aqui fora...
diga-me,
se vale a pena olhar e nada ver.
vai chover hoje?
louças se amontoam na pia
fracos em cima de pratos
homens gordos entupindo o ralo
vaca morta inchada de água
motorista,
abra a janela...
diga-me,
se vale a pena andar e não ir a lugares aonde se quer chegar.
que horas são?
dispa-se
cabides em pedaços pelo chão
restos de vida
ácidos consumidos na espera
hienas implorando perdão através do riso
travesti,
chega mais...
diga-me,
se vale a pena receber enquanto se quer dar.
qual é a próxima esquina?
água na chaleira
chá na cuia para digestão
salão de danças armado
fuzil, 38cm, arma de leite
amiga junkie,
entra aqui...
diga-me,
se vale a pena estar sã enquanto tudo se esvai.
que dia é hoje?
dispa-se
brinde na tarde chuvosa
doce neblina
suavidade nas pálpebras alertas
vigia,
venha aqui fora...
diga-me,
se vale a pena olhar e nada ver.
vai chover hoje?
louças se amontoam na pia
fracos em cima de pratos
homens gordos entupindo o ralo
vaca morta inchada de água
motorista,
abra a janela...
diga-me,
se vale a pena andar e não ir a lugares aonde se quer chegar.
que horas são?
dispa-se
cabides em pedaços pelo chão
restos de vida
ácidos consumidos na espera
hienas implorando perdão através do riso
travesti,
chega mais...
diga-me,
se vale a pena receber enquanto se quer dar.
qual é a próxima esquina?
água na chaleira
chá na cuia para digestão
salão de danças armado
fuzil, 38cm, arma de leite
amiga junkie,
entra aqui...
diga-me,
se vale a pena estar sã enquanto tudo se esvai.
que dia é hoje?
dispa-se
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Fastasmas em Bruges
Fantasmas em Bruges
Paciência. Era preciso esperar. Deixar os dias seguirem o rumo daqueles que o não o possuem. Enfim, livrar-se? "Mas livrar-se do quê?" "Daquilo?!" "O que seria?!" Alan não fazia ideia do que precisava ficar pelo caminho, sabia apenas que aquilo, seja lá o que fosse, deveria ir.
***
Espera sempre ao colchão. Não por muito tempo. Fica ali somente durante as horas de sono, do sono dos outros. Não dorme há meses. A rotina diaria; trabalho, casa, drogas, trabalho, casa, drogas, tomam o tempo da angústia. Mas crê que sentindo a dor em sua potência máxima compreenderá os motivos pelos quais sofre. Crê nisso religiosamente. Mais do que gostaria. Mesmo assim vive e entoa mantras aludindo a tão alerdeada paciência. Faz dez anos que espera categoricamente pelo novo amanhã, mas descobre que enquanto o tempo encolhe para todos se alonga para ele, para suas expectativas no porvir.
Durante as horas que passa debruçado sobre o computador, preenchendo planinhas e mais planinhas, maquiando resultados e desenvolvendo novas estratégias de como fumar um baseado no banheiro coletivo, entre os intervalos, sem que ninguém perceba, é suficiente doloroso para que ele enquanto trabalha ainda pense em sua desgraça invisível. Invisível, porém latente.
Bruges é uma cidade adorável até para aqueles que estão no limite. O convite para viagem veio do diretor comercial como cortesia pelos "ótimos" serviços prestados no ano. Abriu o sorriso e tirou o passaporte para embarcar rumo a seus fantasmas. "Belo lugar para morrer", "Nada como um suicídio na cidade kistch, apelidada de Veneza do Norte", eram pensamentos constantes na primeira semana de sua estada. Ficaria em Bruges por mais duas semanas e não pensava em nada além das tristezas trazidas na bagagem.
O sol brilha muito pouco na cidade belga. Os dias são cada vez mais cinzentos e gelados. Alan desce a rua cansado de todo o tempo que vem gastando com algo metafísico e percebe que talvez a resposta seja ele. Precisa se livrar dele. Remoeu o pensamento enquanto atravessava a praça em direção a torre. São vários degraus até o topo, talvez ficando suficientemente cansado pela subida consega clarear as ideias. Tomou folêgo, subiu degrau por degrau quase em um nirvana. Chegou ao topo. Ofegante, olhou as horas, a cidade abaixo dele, o horizonte perdido e pulou.
Paciência. Era preciso esperar. Deixar os dias seguirem o rumo daqueles que o não o possuem. Enfim, livrar-se? "Mas livrar-se do quê?" "Daquilo?!" "O que seria?!" Alan não fazia ideia do que precisava ficar pelo caminho, sabia apenas que aquilo, seja lá o que fosse, deveria ir.
***
Espera sempre ao colchão. Não por muito tempo. Fica ali somente durante as horas de sono, do sono dos outros. Não dorme há meses. A rotina diaria; trabalho, casa, drogas, trabalho, casa, drogas, tomam o tempo da angústia. Mas crê que sentindo a dor em sua potência máxima compreenderá os motivos pelos quais sofre. Crê nisso religiosamente. Mais do que gostaria. Mesmo assim vive e entoa mantras aludindo a tão alerdeada paciência. Faz dez anos que espera categoricamente pelo novo amanhã, mas descobre que enquanto o tempo encolhe para todos se alonga para ele, para suas expectativas no porvir.
Durante as horas que passa debruçado sobre o computador, preenchendo planinhas e mais planinhas, maquiando resultados e desenvolvendo novas estratégias de como fumar um baseado no banheiro coletivo, entre os intervalos, sem que ninguém perceba, é suficiente doloroso para que ele enquanto trabalha ainda pense em sua desgraça invisível. Invisível, porém latente.
Bruges é uma cidade adorável até para aqueles que estão no limite. O convite para viagem veio do diretor comercial como cortesia pelos "ótimos" serviços prestados no ano. Abriu o sorriso e tirou o passaporte para embarcar rumo a seus fantasmas. "Belo lugar para morrer", "Nada como um suicídio na cidade kistch, apelidada de Veneza do Norte", eram pensamentos constantes na primeira semana de sua estada. Ficaria em Bruges por mais duas semanas e não pensava em nada além das tristezas trazidas na bagagem.
O sol brilha muito pouco na cidade belga. Os dias são cada vez mais cinzentos e gelados. Alan desce a rua cansado de todo o tempo que vem gastando com algo metafísico e percebe que talvez a resposta seja ele. Precisa se livrar dele. Remoeu o pensamento enquanto atravessava a praça em direção a torre. São vários degraus até o topo, talvez ficando suficientemente cansado pela subida consega clarear as ideias. Tomou folêgo, subiu degrau por degrau quase em um nirvana. Chegou ao topo. Ofegante, olhou as horas, a cidade abaixo dele, o horizonte perdido e pulou.
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